Prepare-se um farnel, sem esquecer as bebidas. Encontre-se um lugar confortável e, por favor, não se esqueçam de apertar os cintos de segurança – é que vamos para “Longe”. Só mesmo os cépticos profissionais e os defuntos de espírito chegarão ao fim da escuta desta dúzia de canções no mesmo “lugar”. Por eles, como nos westerns, não há mais nada a fazer – a não ser o tiro de misericórdia. E Pedro Abrunhosa, sendo vincado e íntegro como poucos, nunca foi de perseguir unanimidades, graças a Deus.
Agora, em 2010, depois dos milhares de espectáculos e de discos que se cruzam num currículo singular, parece disposto a algo que se aproxima de um recomeço radical. Precisou de juntar os actos à predisposição de não se acomodar. Mudou de companhias, da equipa técnica aos parceiros musicais. Mudou os nomes – entram em cena os Comité Caviar. E, sem medos nem preconceitos, mudou de som. Ou seja: mesmo antes de começar a ser ouvido, este já é um disco de estrada, de caminhos, de aventuras temerárias, de novas histórias.
E lá vamos nós exercitar o saudável contraditório. Nunca Abrunhosa perde a noção de que este disco será o seu alicerce e o seu andar-modelo quando subir ao palco, para se mostrar (de) novo – lá está “Eu Sou O Poder”, cuja dimensão cénica é perfeitamente sensível e assumida. Há o caso do tema de fecho, “Capitão da Areia”, entre a cantiga de embalar e a caixinha de música, aquele momento em que o homem se cansa de ter crescido e aceita o amparo dos super-heróis. Nos antípodas, mora a canção de abertura, “Rei do Bairro Alto”, um retrato crítico mas que, tanto nos cruzarmos com ele, não chega a ser uma caricatura: “O meu casaco de pele / O meu Porsche vermelho, / Se eu puxar de papel / Já não me sinto tão velho. / Hum, estou bem! / Se os outros vão eu vou também, / Gosto que me vejam / O decote em janela, / Aprendo esta pose, / Já tenho um pé na novela”. Há mais sátira, em “Ai, Ai, Caramba, Já Fui!”, a que os metais latinizados emprestam o tom dançante que se imagina também especialmente recomendado para os concertos. Quem procurar a balada, pode ficar-se por “Não Desistas de Mim”, reflexo do despojamento instrumental, argumento que não deixa lugar a equívocos: “A porta fechou-se contigo, / Levaste na noite o meu chão, / E agora neste quarto vazio / Não sei que outras sombras virão (…) / Há um perfume que ficou na escada, / E na TV o teu canal está aberto, / Desenhos de corpos na cama fechada, / Sai um mapa de um passado deserto”.
O resto, tudo o resto, é a artéria principal, o nervo, a essência que faz de “Longe” um disco de proximidade. O piano de Pedro Abrunhosa, o órgão e os teclados de Cláudio Souto, as guitarras de Marco Nunes e Paulo Praça, o baixo de Miguel Barros, a bateria e a percussão de Pedro Martins, os coros (muito “doo-wop”, acompanhando a estética rigorosa de todo o álbum) de Patrícia Antunes e Patrícia Silveira juntam-se, numa harmonia trabalhada para criar confortos mútuos e inquietações múltiplas, em canções que parecem saídas do fundo dos tempos mas são o espelho destes dias de Abrunhosa que, já agora, se afirma – ou confirma – como intérprete. Que querem que vos diga mais? É um disco de rock, sem complementos de circunstância e sem leis de incompatibilidades – daí que não sejam corpos estranhos os metais e as cordas de ocasião, a voz feminina de Cristina Massena (lá chegaremos, em futuro que se espera próximo), o rap e o scratch.
Mas esses são os ramos que, aqui ou ali, emergem de um sólido tronco central, responsável por canções do mais fino recorte (não fossem originais de Abrunhosa e apetecia descrevê-las como tendo “origem nas melhores proveniências”): “Pode O Céu Ser Tão Longe”, “Se Houver Um Anjo da Guarda”, a já citada “Fazer O Que Ainda Não Foi Feito”, “Durante Toda A Noite”, “Já Não Há Por Onde Fugir” e “Enquanto Há Estrada” (outro título de encaixe perfeito) entram directamente para a antologia do melhor Abrunhosa, descomprometido, enérgico, agitador, observador, quase sempre superior.
Alinhamento:
1. Rei do Bairro Alto
2. Entre a espada e a parede
3. Pode o céu ser tão longe
4. Se houver um anjo da guarda
5. Fazer o que ainda não foi feito
6. Durante toda a noite
7. Não desistas de mim
8. Ai, Ai, caramba! já fui...
9. Já não há por onde fugir
10. Eu sou o poder
11. Enquanto há estrada
12. Capitão da areia

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